
Nos últimos dias, os jornais publicaram os resultados de um relatório de pesquisa da Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo o qual, em 2000, o tabaco contribuiu com 4,1% e o álcool com 4% para a carga de doenças, enquanto as drogas ilícitas (ou seja, maconha, cocaína, anfetaminas, crack, etc.) contribuíram com “apenas” 0,8%.
Em primeiro lugar, o relatório da OMS fala de doenças, e não de
mortes. Mas vamos admitir que “matam mais” seja sinônimo de “são mais
prejudiciais à saúde”. Além disto, o que acontece é que o alcoolismo e o
tabagismo “matam mais”, em valor absoluto, que as drogas ilícitas, não
por serem mais nocivos, e sim porque são consumidos em muito maior
escala. E são mais consumidos, entre outras coisas, exatamente porque
são legais. No momento em que legalizarem a cocaína, por exemplo, e o
seu consumo atingir a ordem de grandeza dos níveis de consumo do álcool,
a cocaína vai matar muito mais do que o álcool.
Para certificar-se disto, vamos aos dados. Em 2001, a Secretaria
Nacional Antidrogas (SENAD), em parceria com o Centro Brasileiro de
Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Escola Paulista de Medicina,
publicou os dados do Primeiro Levantamento Domiciliar sobre o Uso de
Drogas Psicotrópicas no Brasil. De acordo com este levantamento, no mês
anterior à pesquisa, 35,3% das pessoas de 12 a 65 anos consumiram
bebidas alcoólicas, enquanto 19,8% dessas mesmas pessoas usaram tabaco e
apenas 2,5% usaram alguma droga ilícita (fique bem claro que este
número refere-se ao conjunto de todas as drogas ilícitas; se fosse, por
exemplo, só para a maconha, que foi a mais usada, esta proporção cairia
para 0,6%).
É preciso tomar cuidado ao comparar estes dados com os dados da
OMS, pois estes últimos referem-se a doenças, enquanto os da SENAD
referem-se a pessoas; pode haver múltiplas contagens (uma mesma pessoa
pode consumir álcool e tabaco simultaneamente, e uma mesma doença pode
ser atribuída a estas duas drogas); as populações investigadas não são
as mesmas; etc.
Porém, só para efeito de ilustração, imaginemos uma população de
mil doentes brasileiros. Pode-se estimar razoavelmente, pelos dados da
SENAD, que 353 deles são consumidores de álcool, 198 de tabaco e 25 de
drogas ilícitas. Por outro lado, não é despropositado pensar que, pelos
dados da OMS, 41 estejam doentes devido ao álcool, 40 devido ao tabaco e
8 devido às drogas ilícitas. Mas então a “malignidade” do álcool é de
41 em 353 (ou seja, 12%), enquanto a “malignidade” do tabaco é de 40 em
198 (ou seja, 20%), e a “malignidade” das drogas ilícitas é de 8 em 25
(ou seja, 32%).
Portanto, de acordo com estes dados e com hipóteses razoáveis, quem
“mata mais” são as drogas ilícitas, em segundo lugar vem o tabaco e,
depois, o álcool.
Não nos iludamos. As drogas ilícitas são nocivas à saúde. E é por isto que são ilegais e devem continuar a sê-lo.
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